Nona Literatura e Aleph por A Seita - Os Trabalhadores do Mar, O Deserto dos Tártaros, O Fantasma da Ópera, Trilogia Shakespeariana e Dylan Dog: Morte em 16 por 9


A consolidação de Portugal no panorama da banda desenhada europeia deve muito ao arrojo de projetos editoriais como o da editora A Seita. Através de coleções e lançamentos focados em expandir as fronteiras da nona arte, a editora tem operado uma ponte sofisticada entre a herança literária universal e a linguagem sequencial contemporânea. Ao analisar em contínuo um quinteto de lançamentos marcantes da sua coleção «Nona Literatura», constituído por "Os Trabalhadores do Mar", "O Deserto dos Tártaros", "O Fantasma da Ópera", "Trilogia Shakespeariana" e "Dylan Dog: Morte em 16 por 9" na coleção «Aleph», torna-se evidente um fio condutor curatorial: a exploração da obsessão humana, do isolamento e do confronto com forças que transcendem a nossa escala quotidiana, sejam elas naturais, psicológicas ou abertamente sobrenaturais.


O ponto de partida desta viagem pelo catálogo da editora faz-se através do confronto visceral com a natureza em "Os Trabalhadores do Mar". Adaptada pelo autor francês Michel Durand, a icónica narrativa de Victor Hugo ganha uma materialidade impressionante através de pranchas inteiramente construídas à base de hachuras, evocando as gravuras de finais do século XIX.


A solidão do marinheiro Gilliatt na sua missão hercúlea e marginal de recuperar um motor nas escarpas perigosas de Guernsey espelha o próprio ato de transposição artística: uma luta absoluta da determinação humana contra a imensidão indiferente e violenta do oceano. A arte de Durand não se limita a ilustrar o texto oitocentista; ela mimetiza a opressão atmosférica e o ananke (a fatalidade das coisas) que Hugo tão bem teorizou.


Esta atmosfera de clausura e de inevitabilidade existencial transita de forma orgânica para "O Deserto dos Tártaros", obra-prima de Dino Buzzati transposta para a banda desenhada pela dupla Michele Medda e Pasquale Frisenda. Onde o mar de Victor Hugo sufocava pelo excesso de força, o deserto de Buzzati desidrata a alma pela ausência de ação. A rotina do jovem oficial Giovanni Drogo na isolada Fortaleza Bastiani, uma guarnição que consome vidas inteiras na miragem de uma invasão que nunca se concretiza, é traduzida por Frisenda através de um realismo fantástico poético e melancólico.


A arquitetura austera do forte e a vastidão estéril do horizonte funcionam como metáforas visuais perfeitas da passagem implacável do tempo e do peso psicológico do comodismo e das aspirações juvenis atrofiarem na repetição quotidiana.


Se a Fortaleza Bastiani vive da contenção do invisível, o cenário parisiense de "O Fantasma da Ópera", uma vibrante coedição de A Seita com a Arte de Autor, explode em teatralidade e sumptuosidade gótica. Os irmãos Paul e Gaëtan Brizzi assumem as rédeas desta recriação do clássico de Gaston Leroux, mergulhando nos bastidores sombrios da Ópera Garnier por volta de 1890.


O virtuosismo visual dos Brizzi reconstrói a obsessão amorosa e a tragédia lírica de Erik e Christine através de uma sumptuosidade cenográfica e de jogos de luz e sombras que capturam a essência do melodrama francês. O fantasma literário torna-se, na ponta do lápis dos autores, uma entidade simultaneamente aterrorizadora e patética, cuja prisão não é o mar ou o deserto, mas sim os labirintos subterrâneos da arte e da sua própria deformidade.


A "Trilogia Shakespeariana", editada numa parceria entre A Seita e a Levoir (também incluída na Coleção Novelas Gráficas do jornal Público), representa um marco incontornável que desafia e redefine as fronteiras da narrativa visual na banda desenhada europeia. Originalmente publicada na década de 1970, a obra reúne as adaptações de três das mais célebres peças de William Shakespeare: Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade. Com a tradução cuidada do Professor João Miguel Lameiras e os textos adaptados por Raoul Traverso (sob o pseudónimo de Sigma), o grande motor revolucionário deste volume reside no génio artístico do mestre italiano Gianni De Luca. Adaptar a dramaturgia shakespeariana para a nona arte constitui um desafio titânico, dado que o teatro depende intrinsecamente do dinamismo do diálogo, da expressão corporal e da gestão do espaço cénico.


Contudo, De Luca contorna a rigidez tradicional das vinhetas ao conceber as páginas como autênticos palcos abertos. A sua extraordinária experimentação gráfica elimina as divisões geométricas convencionais, permitindo que as personagens se desloquem fluidamente através de um único cenário contínuo, repetindo-se na mesma página para simular o movimento e a passagem do tempo. Esta fusão audaz entre a linguagem teatral e a BD cria uma ilusão de profundidade e coreografia cénica raramente vista, onde o respeito absoluto pelo peso dramático do bardo de Avon coexiste harmoniosamente com uma vanguarda estética revolucionária. Ao resgatar este clássico intemporal para o público português, o esforço conjunto da Levoir e A Seita não só enriquece o mercado nacional, como oferece aos leitores, estudiosos e entusiastas uma lição magistral sobre o poder da evolução geométrica e sequencial da banda desenhada.


Incluído na coleção «Aleph», este cruzamento entre a fixação artística e as dimensões ocultas da mente encontra o seu zénite em "Dylan Dog: Morte em 16 por 9". Ao trazer para o público português uma aventura comemorativa do célebre Detetive dos Pesadelos da Sergio Bonelli Editore, com assinatura de Roberto Recchioni e arte expressionista de Corrado Roi, A Seita expande a sua curadoria literária para o "fumetto" de autor.


Nesta viagem psicadélica e de terror absoluto, Dylan Dog vê-se enredado nos meandros de uma mecenas misteriosa que confunde os limites entre a criação artística, o prazer, a dor e a mortalidade. O negrume denso e atmosférico dos traços de Corrado Roi liberta o herói dos seus ambientes urbanos habituais e projeta-o num pesadelo cósmico e cinematográfico, onde o ecrã "16 por 9" se transforma num abismo de traumas passados e de desconstrução existencial.


Em suma, as quatro publicações de A Seita funcionam como espelhos de uma mesma inquietação humana, declinada em tonalidades gráficas radicalmente distintas, mas tematicamente sintonizadas. Do classicismo romântico e marítimo de Durand ao preto e branco onírico e expressionista de Roi, passando pelo rigor arquitetónico de Frisenda e pela opulência dos irmãos Brizzi, estas obras justificam plenamente a elevação da banda desenhada ao estatuto de «Nona Literatura». Ao reinterpretar mitos literários e heróis da cultura pop sob a perspetiva de grandes autores contemporâneos da Europa, a editora oferece mais do que entretenimento: entrega ensaios visuais profundos sobre o isolamento e as correntes invisíveis que moldam o destino humano.

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